BUDDHA E JESUS - Helena Blavatsky

 Seis séculos depois da desencarnação de Gautama Buddha, outro reformador, tão nobre e compassivo quanto ele, ainda que menos favorecido pelas circunstâncias, surgiu em outra parte do mundo, numa raça menos espiritual. 

Há grande semelhança entre as influências exercidas pelos dois salvadores, um no Oriente e outro o Ocidente. Milhões de criaturas se converteram às doutrinas de ambos os Mestres; mas as destruíram ou deformaram inimigos alimentados pelo sectarismo, usando de maliciosas tangiversações de verdades que, estando ocultas, eram duplamente perigosas.

De Buddha, disseram os brâmanes que, apesar de ser realmente um avatar de Vishnu, viera para destruir a crença bramânica, sendo assim o aspecto maligno do deus. De Jesus afirmaram que era um falso messias, destruidor da religião ortodoxa.

Se os dois iniciados, por terem consciência do perigo de proporcionar às massas incultas os poderes inerentes ao conhecimento final, deixaram em profundas trevas os mais secretos recantos do santuário, quem, conhecendo a natureza humana, poderá censurá-los por isso?

É possível que Buddha houvesse revelado mais que o estritamente necessário ao bem da posteridade. Contudo guardou prudente reserva sobre os pontos mais perigosos do conhecimento esotérico, tendo morrido com a idade provecta de oitenta anos, convencido de haver ensinado as verdades essenciais e lançado as sementes para a conversão de um terço da humanidade.


Mas Jesus, que havia prometido a seus discípulos conferir-lhes o dom de fazer milagres ainda maiores que os dele, só deixou ao morrer um pequeno número de discípulos fieis, que estavam apenas a meio caminho do conhecimento. Tinham eles, portanto, que enfrentar um mundo ao qual só podiam transmitir o incompleto conhecimento que possuíam e nada mais.

Em épocas posteriores, os partidários exotéricos de ambos os Mestres deturparam as verdades ensinadas, a tal ponto que muitas vezes as deixaram irreconhecíveis. No que respeita aos prosélitos do Mestre ocidental, a prova está em que nenhum deles pode atualmente realizar os milagres prometidos.

Consoante a tradição, os brâmanes cometeram um grave pecado quando perseguiram Gautama Buddha e lhe condenaram os ensinamentos, em vez de harmonizá-los com os dogmas do puro hinduísmo védico, como o fez mais tarde Shankarachárya.

Jamais Buddha se opôs aos Vedas; apenas combateu o alargamento exotérico de interpretações eivadas de preconceitos. Como no caso de seu sucessor ocidentald, Gautama foi o primeiro adepto da hierarquia oriental, se não no mundo inteiro, que estreitou em fraternal abraço todos os homens, sem distinção de raça, nascimento ou casta.

Foi o primeiro que proclamou essa nobre e grande máxima, e o primeiro que a pôs em prática. Os pobres, os oprimidos, os párias e os miseráveis, ele os convidou a tomar parte no festim real; e excluiu os que até então se tinham acastelado no orgulho e no egoísmo, crendo que os contaminava até a sombra dos deserdados da terra.

Os brâmanes sem espiritualidade insurgiram-se contra ele, em razão daquela preferência. E daí em diante nunca perdoaram Gautama, filho de reis, que desprezando a própria categoria e posição social, abriu de par em par as portas do santuário, até então interdito aos párias e aos homens de condição inferior, e sobrepôs o mérito pessoal ao direito hereditário e à riqueza material.

O pecado era deles, mas a causa era de Buddha, por isso o Misericordioso não podia afastar-se inteiramente deste mundo de ilusão e de causas geradas sem expiar os pecados de todos - e portanto os dos próprios brãmanes.

Se o "homem aflito pelo homem" encontrou um refúgio seguro junto a Gautama, o "homem que aflige o homem" foi também aquinhoado com Seu auto-sacrifício e seu compassivo amor. Diz-se que Ele desejou expiar todos os pecados de seus inimigos, e somente depois quis ser um Dharmakaya completo, um Jivanmukta "sem resíduos".

Perdura a crença de que esse Adepto dos Adeptos ainda vive atualmente, em sua entidade espiritual, como uma presença misteriosa e invisível na Fraternidade de Shamballa, além, muito além, dos nevados cumes das cordilheiras dos Himalayas.


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