A SENDA DO DISCIPULADO - Jinarajadasa

 

À medida que a Sabedoria Antiga desvenda aos olhos do investigador o Plano majestoso da evolução, surgem pessoas cujos corações ardem em irresistível desejo de consagrar-se a esse Plano. Todas as coisas da vida perdem o sabor depois de obtida a Visão Celestial, e desde esse momento nada mais é possível senão entregar-se totalmente e sem reservas a um ideal de serviço, devoção ou renúncia.

Os estímulos mais nobres do homem são manifestações nos níveis terrestres de uma expansão da consciência nos reinos celestes; a visão de um ideal traz consigo a promessa de seu atingimento. Pois no homem está o Caminho, a Verdade e a Vida; basta apenas que se desperte de sua letargia, para ver a Luz que arde em sua Alma.

O despertar de uma alma abrange muitos estágios, e as influências de todas as formas de cultura são convergidas sobre ela para fazer com que a Centelha Divina em seu interior se exteriorize como chama.


No longo período do desenvolvimento da consciência da alma, chega um estágio em que se reconhece claramente que nela o egoísmo foi substituído pelo altruísmo. Aparece então na Terra como homem ou mulher de ideias, e embora tentado muitas vezes para trair esse ideal, nunca o renuncia definitivamente, e o mantém à custa de sofrimentos e martírios.

É neste estágio que intervém na vida da alma um Ser que lhe guiará a expansão da consciência a maiores excelsitudes de realizações. É um "Pai em Deus", um Mestre de sabedoria, que observou os esforços da alma, vidas seguidas, para manter-se fiel ao ideal, e agora vem estabelecer com ela os laços de Mestre e discípulo.

Há vários estágios na Senda do Discipulado. O primeiro é o do discípulo em provação, em que o Mestre põe em prova o aspirante, a qual é realizada ora no plano físico, ora no astral, porém mais comumente no segundo. Por ordem do Mestre, um discípulo mais adiantado conduz o aspirante até Ele, que então o põe formalmente em provação.

É então que o Mestre forma o que se chama a "imagem viva"; é uma reprodução viva dos corpos astral e mental do discípulo, criada pela vontade do Mestre. A imagem viva permanece junto do Mestre, e é tão magneticamente ligada ao discípulo, que ela registra perfeitamente os efeitos dos seus pensamentos e emoções durante sua atuação na vida.

O Mestre examina frequentemente essa imagem viva, para ver até onde chega o discípulo, em seus êxitos ou quedas. É desnecessário dizer que Ele não o faz meramente como juiz, senão que envia ao discípulo, pela imagem viva, toda purificação e força que se lhe permite receber.

O ato de se pôr em provação é a resposta a um pedido, feito pelo discípulo aos Guardiães da Humanidade, para que lhe sejam dadas oportunidades para uma evolução mais rápida do que a humanidade em geral. Na resposta está implícito um reajustamento do karma individual.

Tal reajustamento objetiva: 1º) libertar lentamente o indivíduo das variedades do karma que o impedem de poder tornar-se útil; 2º) proporcionar-lhe oportunidades de adquirir conhecimentos mais vastos, especialmente das verdades ocultas da natureza; 3º) dar-lhe novas oportunidades de sua auto-expressão pelo serviço.

A provação ou exame do discípulo consiste em experimentá-lo para ver sua resistência aos choques do seu karma, sem diminuição do seu altruísmo, embora sua vida se despoje das satisfações e deleites que para a maioria dos homens tornam a existência digna de ser vivida. A prova visa também verificar sua suficiente adaptabilidade e dedicação ao Plano do Mestre.

Pois cada Mestre de sabedoria é o centro de um grande número de atividades, que Ele empreendeu como Sua contribuição ao Plano do Logos (divindade solar). Portanto um aspirante é posto em Provação mais para ser treinado para ser um aprendiz que ajude o Mestre em Seu trabalho, do que para obter conhecimento do Mestre.

O discípulo que está em período probatório deve, pois, estar pronto a trocar, em caso de necessidade, seus métodos próprios de trabalho pelos do Mestre; deve estar disposto a cooperar com seus colegas de aprendizagem; e de todos os modos deve demonstrar que nele mais pesa um ideal de serviço do que sua satisfação pessoal como trabalhador.

Quando o Mestre aceita um aspirante como discípulo de período probatório, habitualmente é com a esperança de apresentá-lo à Iniciação naquela mesma vida. Pelo fato de haver o Mestre respondido às aspirações do discípulo, não se segue que este seja bem sucedido; adquiriu o direito cármico da oportunidade, porém dele somente depende o uso que dela faça.

Contudo, se for firme em sua resolução e deixar-se guiar pelos discípulos mais adiantados do Mestre, terá mais probabilidade de êxito que de fracasso. Se trabalhar arduamente por adquirir as qualidades requeridas para a iniciação, então a tendência ao Bem inerente na Natureza o ajudará, dando-lhe luz e força.

Se depois de sete anos de experiência, o discípulo em provação progrediu no desejo altruísta de sacrificar-se pelos homens e Deus, seu Mestre o receberá finalmente como discípulo no estágio de aceitação. Sua imagem é desfeita, e o Mestre estabelece com o discípulo aceito um laço interno que, ainda que rompido temporariamente pelo discípulo, por uma queda, nas vidas futuras será sentido sob forma de atração por seu Mestre.

Uma vez aceito, dá-se ao discípulo o direito de uma experiência mística de grande inspiração para seu trabalho. Quando surge um problema que ele não pode resolver com suas próprias experiências, compara sua opinião com a do Mestre sobre o mesmo assunto. Consegue-o elevando no momento sua consciência até a orla da consciência do Mestre.

Se se pode libertar dos preconceitos de sua personalidade, e sabe como preservar-se das idiossincrasias de seu temperamento, a possibilidade de comprovar seu juízo pelo critério do Mestre será um dos maiores privilégios que pode alcançar em sua vida. Isto o capacita para distinguir o mais útil do menos útil, o mais e o menos auxiliador, quando trabalha para os homens em nome de seu Mestre.

Há alguns discípulos postos em provação, que reduziram para um ano, e ainda menos, o período habitual de sete anos entre a Provação e a Aceitação. Mas são raras almas tão afortunadas, porque isso significa que, ao entrarem em Provação, tinham atrás de si grande quantidade de karma de serviço acumulado, que lhes dá a força de oportunidades que outros não ganharam.

O intervalo de tempo entre os diversos períodos da Senda Probatória depende da iniciativa e capacidade do discípulo. Se é enérgico e ousado, pode superar todos os obstáculos e rapidamente entrar na Senda; porém se perde as oportunidades tem de empregar dezenas de anos num estágio, antes de poder passar ao seguinte. Todos os discípulos, sem distinção, recebem a inspiração do Mestre, porém cada um assimila de acordo com sua capacidade.

Um laço mais estreito ainda se forma no estágio seguinte entre o Mestre e o discípulo, quando este se converter em Filho do Mestre. A vida maravilhosa que vive o Mestre entre seus pares se reflete cada vez mais nas esperanças e sonhos do discípulo que, lentamente, como que se transforma numa célula vivente do organismo de seu Mestre.

Cresce até se tornar um raio da consciência do Mestre, e chega a possuir uma profundeza de sabedoria que não é sua, mas lhe é dada para uso de seu Pai Divino. Nunca mais o discípulo poderá estar só; nas tristezas e alegrias, na obscuridade e na luz, a consciência do Mestre envolve a do discípulo, ainda que algumas vezes este não se aperceba de tão glorioso fato. 

Daí por diante, como trabalha para o plano do Mestre, lhe é indiferente que o mundo o receba com aclamações ou o martirize; não trabalha mais como o obreiro solitário, porém como irmão mais jovem ao lado de Outro mais velho e experimentado.

A  apresentação do discípulo por seu Mestre à Grande Fraternidade Branca, para sua Iniciação, coincide geralmente com o estágio de Filho do Mestre. Por este ato, o Mestre afirma à Fraternidade que seu discípulo está suficientemente apto, por seus ideais e por sua vida, como pelo equilíbrio entre seu bom e mau karma, a partilhar da vida daquele augusto Corpo, e ser um canal de Suas forças para o mundo.



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