A DOUTRINA DOS AVATARES - Helena Blavatsky

 Entre os discípulos de alguns insignes gurus do Himalaya, e até mesmo entre leigos, persiste uma estranha tradição, que melhor se pode qualificar de lenda, segundo a qual Gautama, o príncipe de Kapilavastu, nunca teria deixado as regiões terrestres, apesar da morte e incineração de seu corpo físico e das relíquias que deste se conservaram.

Os budistas chineses e os árias, por tradição oral, e os lamas do Tibete, de acordo com o texto de seus livros sagrados, afirmam que Gautama Buddha tinha duas doutrinas: uma para seus discípulos leigos e as massas, e outra para seus eleitos, os Arhats.

Ao que parece, a norma de conduta do Mestre, também seguida pelos Arhats, foi a de não recusar a admissão de nenhum candidato ao arhatado, mas somente revelar os mistérios finais àqueles que, depois de muitos anos de noviciado, houvessem provado que eram dignos da iniciação.

Estes, uma vez aceitos, eram consagrados e iniciados, sem qualquer distinção de raça, casta ou riqueza, como aconteceu no caso de seu sucessor ocidental (Jesus).

Foram os Arhats que deram curso àquela tradição, perpetuando-a na mente do povo; e nela também se baseia o dogma posterior da reencarnação lamaica dos Buddhas humanos.

Os budistas sempre negaram categoricamente que o Buddha, como pretendem os brâmanes, fosse um avatar de Vishnu, no mesmo sentido em que um homemé a encarnação de seu antepassado kármico. Sua negativa talvez provenha, em parte, de não conhecerem o significado esotérico completo, impessoal e amplo da expressão Maha Vishnu.


Há um misterioso princípio na Natureza, chamado Maha Vishnu, que não se confunde com o deus Vishnu, mas é um princípio que contém a semente do avatarismo, ou em outras palavras que é o potencial e a causa de tais encarnações divinas.

Todos os salvadores do mundo, Boddhisattvas e Avatares, são as árvores de redenção que brotam de uma única semente: Maha Vishnu, ou Adi-Buddha (Sabedoria Primordial).

Esotericamente interpretado, Vishnu é ao mesmo tempo Saguna e Nirguna (com atributos e sem eles). Sob o primeiro aspecto, Vishnu é objeto de culto e devoção exotéricos; sob o segundo, como Nirguna, é o ponto culminante de toda a sabedoria do Universo, ou seja, o Nirvana; e o adoram todas as mentes filosóficas. Neste sentido esotérico, o Senhor Buddha foi uma encarnação de Maha Vishnu.

Isso do ponto de vista filosófico e puramente espiritual. Contudo, sabem os iniciados que, no plano da ilusão, digamos assim, ou do ponto de vista terreno, foi Buddha a encarnação direta de um dos primitivos "Filhos da Luz", que se encontram em todas as teogonias: são os Dhyan Chohans, cuja missão, de uma a outra eternidade, é cuidar do progresso espiritual das regiões que lhes foram confiadas.

Assim, todos os avatares se confundem em um só: eles são os Filhos do "Pai", sua progênie direta. com o tempo, o Pai (ou uma das Sete Chamas) chega a ser o Filho, e o Filho se torna uno com o Pai - na Eternidade.

Além disso, todo ser humano tem seu próprio Espírito divino ou Deus pessoal. Essa divina Entidade ou Chama, de onde promana Buddhi, está para com o homem, embora num plano inferior, na mesma relação que o Dhyani Buddha para com seu Buddha humano. Não são, portanto, irreconciliáveis o monoteísmo e o politeísmo: ambos existem na Natureza.


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